Abolição? Não, patrimonialização do samba, legado do povo escravizado
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O 13 de maio há muito deixou de ser celebrado como o principal marco do fim da escravização no Brasil, por meio da assinatura da Lei Áurea. Por muito tempo exaltado como marco da Abolição pela historiografia oficial, o ato hoje é visto pelo movimento negro e por muitas instituições culturais de forma diferente. Como no caso do Museu do Samba, localizado há 25 anos aos pés do Morro da Mangueira, uma das regiões mais carentes da cidade do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, berço do samba, da Verde Rosa e de alguns dos maiores poetas da MPB.

“O samba é legado do povo escravizado, no canto, nos tambores, a oralidade e a sabedoria ancestral de um povo que transformou dor em celebração da vida. Cada roda de samba carrega a memória daqueles que vieram antes e insistiram em existir com dignidade”, afirma Nilcemar Nogueira, neta do compositor Cartola e fundadora do Museu do Samba.
Com este posicionamento, o Museu do Samba programou para a próxima quinta-feira, 14 de maio, um dia após a data que tornou-se controversa, uma edição especial do programa “Samba Minha Raiz”, que promove a educação patrimonial a partir de encontros de alunos de escolas públicas com sambistas experientes, seguidas de atividades práticas.
Uma turma do 9° ano do Ensino Fundamental do Colégio Pedro II, unidade Tijuca, visitará o Museu do Samba, a partir das 10h30min. A garotada será recebida por Amanda Mattos, coordenadora da Ala de Passistas da Estação Primeira de Mangueira, que além de conversar sobre um dos maiores fundamentos do gênero, o samba no pé, falará de sua experiência na Marquês de Sapucaí e, no final, comandará uma aula prática para ensinar a garotada a sambar.
Nilcemar Nogueira, neta do compositor Cartola e de Dona Zica, fará uma visita guiada dos alunos pelas exposições em cartaz no museu, seguida de um bate papo sobre a trajetória de seu avô.

“O Museu do Samba tem a missão dar continuidade a luta do povo preto a partir da valorização da cultura de matriz africana, o samba, hoje registrado Patrimônio Cultural do Brasil. Para a população negra, o 13 de maio há muito tempo deixou de ser visto como uma celebração da abolição, como uma libertação. Foi sim uma manobra política do imperador aliado à luta social do povo preto. Uma liberdade que nunca foi plena. A abolição aconteceu no papel, mas a exclusão social permaneceu e seus efeitos atravessam gerações até hoje”, critica Nilcemar.
O projeto Samba Minha Raiz é realizado pelo Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Política Nacional Aldir Blanc.
Sobre o projeto Samba Minha Raiz - Voltado à educação patrimonial de crianças e adolescentes atendidos em creches e escolas públicas do ensino fundamental, o projeto “Samba Minha Raiz” atende, prioritariamente, escolas e instituições localizadas próximo ao Morro da Mangueira e região do entorno, abrangendo Benfica, São Cristóvão e Tijuca, embora as localizadas em outros bairros também possam se inscrever. Para participar, as instituições de ensino interessadas devem realizar uma inscrição prévia para o agendamento de seus estudantes nas atividades programadas pelo e-mail agendamentomuseudosamba@gmail.com .
O projeto Samba Minha Raiz realiza “encontros com griôs”, no formato de rodas de conversa entre grandes referências artísticas do samba e do carnaval do Rio de Janeiro e o público infantojuvenil. Griô é um termo africano usado para nomear sábios contadores de histórias, reconhecidos pela comunidade e pela cultura à qual pertencem como detentores de saberes e guardiões da memória e das tradições orais. No caso deste projeto, os griôs são sambistas tradicionais que se consagraram em funções como mestre-sala, porta-bandeira, passista e mestre de bateria.
Já participaram do projeto baianas, carnavalescos, mestres de bateria e compositores, sempre em interação com alunos de escolas públicas e tendo, ao fim, uma atividade prática como aula de bateria e composição de sambas-enredos.
“Por meio da educação patrimonial, o Samba Minha Raiz reafirma o samba como patrimônio imaterial brasileiro e linguagem de resistência da diáspora africana; seu objetivo é combater processos históricos de invisibilização, promovendo a identidade e o pertencimento entre os jovens, e garantindo que o conhecimento ancestral siga pulsando e sendo transmitido de geração em geração”, explica Nilcemar Nogueira.



